Um Grito Parado no Tempo
O dramaturgo Plínio Marcos achava que o Brasil não evoluía. Uma nova montagem de Querô mostra que às vezes é inevitável dar razão a ele.
O dramaturgo Plínio Marcos achava que o Brasil não evoluía. Uma nova montagem de Querô mostra que às vezes é inevitável dar razão a ele.
Plínio Marcos (1935-1999) dizia que suas peças eram sempre atuais porque o Brasil não evoluía. Para a companhia paulistana Folias D'Arte, a sentença continua válida, sobretudo quando se examina o universo retratado por ele. Empenhado em prosseguir com seu trabalho de reflexão sobre a sociedade brasileira e suas contradições, o grupo lançou-se na montagem de Querô — Uma Reportagem Maldita, do dramaturgo santista.
O texto original da peça é uma adaptação feita pelo autor de seu romance homônimo. Na história, o personagem Jerônimo rememora sua vida a um jornalista: o apelido de Querô, que ganha depois que a mãe, uma prostituta, se suicida ao tomar querosene; os favores do prostíbulo em que ela trabalhava; a prisão; a luta feroz pela sobrevivência nas ruas.
O grupo dirigido por Marco Antonio Rodrigues mantém-se fiel à estética de Bertolt Brecht e prossegue com o uso de recursos cênicos que vêm se tornando uma marca sua: o clima de cabaré, o colorido dos figurinos, o elenco numeroso, a música ao vivo (que aqui vai de marchinhas de Carnaval ao heavy metal da banda Black Sabbath). As intervenções do repórter, que usa um microfone para discursar contra a classe média, seu conforto e culpa pelas desigualdades sociais, são ironias também típicas de Brecht e do Folias. Soam como provocação à plateia, que se enquadra exatamente no perfil.
AFINIDADES
Uma medida feliz da montagem é o revezamento de quatro atores nos papéis principais, um para cada apresentação da semana. No caso de Querô, é possível indagar se seria ainda melhor para o público contar com os quatro intérpretes (Thiago Bugallo, Júlio Mello, Réggis Silva e Pedro Oliveira) em uma mesma noite. No mínimo, haveria o efeito positivo de multiplicar a imagem do protagonista.No total, são quase 40 atores e músicos no palco. Segundo o programa da peça, inventou-se o possível sem o orçamento ideal em uma empreitada desse porte. Um acaso geográfico ajuda a prolongar o efeito da peça para além de seu final. Símbolo do centro deteriorado de São Paulo, o Elevado Costa e Silva, conhecido como Minhocão e evocado na montagem, fica bem ao lado do teatro e é uma das rotas de saída dos espectadores. É como se a realidade ilustrasse a causa que defende o Folias e explicasse a afinidade com Plínio Marcos.
Fonte: Revista Bravo.

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